AMIGOS de ANDRÉ MUSTAFÁ

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

MOVENDO UMA MONTANHA SÓ NO SONHO

PREZADOS LEITORES

Vou contar a vocês uma ficção, o professor Jivago é o nosso personagem ficcional e trabalha na Instituição Maluco Beleza. Em uma cidade tão tão distante.

 A Instituição Maluco Beleza queria muito trazer arte (teatro) para suas crianças e adolescentes, mas a coordenação do local não imaginava o quão perigoso era a tarefa da Arte: de despertar nos jovens o exercício da autonomia intelectual, critica e criativa. A coordenação da Instituição pensou que o nosso personagem fictício Jivago não era um educador (um arte-educador... um artista) e sim cuidador de crianças. Daquele tipo que escova dentes e enxuga as mãozinhas dos meninos, serve as refeições e coloca as crianças para um cochilinho vespertino após o almoço...uma sonequinha de sonhar manso.
Dr. Jivago acordando as crianças para Arte.
Dormir, só se for para sonhar profundo...

Jivago pelas crianças e adolescentes da Instituição Maluco Beleza era chamado de tio e não de professor ou educador. A Equipe que estava na Instituição por longos anos nem ligava, se as crianças chamam de tio, professor... mas Jivago sabia por Paulo Freire que"Tio" era parente com responsabilidades diferentes do educador e também a do professor: professor (professava sua verdade e educador partilhava conhecimentos. A ESCOLA FORMAL escolariza e ONGs desenvolviam atividades extra-curriculares se esforçando para desenvolver habilidades sensoriais para além das disciplinas formais). Jivago pensava ser um profissional que tinha estudado longo anos na universidade para depois aplicar  e principalmente partilhar seus conhecimentos na prática... xiiiiiii.... nada disso. Jivago alem de tudo, tinha dias para a lavagem das garrafas e copos da merenda usados pelas crianças no final do dia. Se não limpasse direito, no dia seguinte recebia bronca e questionamentos da própria cozinheira. Mas Jivago ficava a pensar: "_ quem lava os meus pincéis e vasilhas quando dava aulas de pinturas aos jovens?"...  Alguma coisa estava fora da ordem e ninguém mais sabia delimitar o seu espaço de trabalho. Todos na Instituição Maluco Beleza eram educadores por essência e podiam ensinar aos educandos qualquer coisa a qualquer momento. Até ai, tudo bem, mas não existia na Instituição Maluco Beleza um norte pedagógico, um principio filosófico que criasse objetivos comuns em toda a equipe...

Zumbi, rei de Palmares, desenhado pelos adolescentes
em atividades com o educador Jivago, na forma de grafite.
Nkosi Mukumbe. É o Nkise da guerra, das estradas 
 

Mas Jivago não desanimou, após um período de reconhecimento do espaço e do coletivo, verificou que atividades de cultura de matriz africana (afro-brasileira) junto as crianças e adolescentes para a ampliação de repertorio, estético, ético e artístico, na qual a maioria dos meninos da Instituição Maluco Beleza nunca ouviram falar, era um mote e daria pano pra manga: Escravos no Brasil? África? Pelourinho? Zumbi? Palmares? 20 de novembro consciência negra? A Lei 10.639/03...?
... muitos adolescentes na Instituição Maluco Beleza nunca ouviram essa temática. Isso era o de menos. Incrivelmente a coordenação nunca tinha se atentado no fato, de que a comunidade do entorno era composta de afro-descendentes... Daí nosso personagem, o senhor Jivago, tinha uma missão? AMPLIAR REPERTORIO DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES DESSA INSTITUIÇÃO!!! Mas antes disso Jivago foi verificar se a Instituição Maluco Beleza tinha uma Missão. Visão. Valores especificos. Algo no quadro, fixado na parede...Nada encontrou. Tinha um cronograma de atividades, mas que a coordenadora pedagógica nunca lhe forneceu maiores detalhes ou uma cópia... Jivago tinha a sensação de não pertencer a equipe, aquele lugar e que seu barco seguia um rumo sem vento; a deriva.


Maaaas, os absurdos começaram a aparecer quando o nosso personagem o senhor Jivago descobriu inúmeros instrumentos de percussão (tambores, caxixis, xequerês, maracas, agogôs, pandeiros...) empoeirando no silencio escuro de uma saleta no fundo da Instituição Maluco Beleza.... alguém ja tinha tentado algo do tipo ali... mas por algum motivo tosco, a ideia de aulas de percussão, morreu. O dinheiro publico e privado descia descarga abaixo. Mas faltava um berimbau, um texto de teatro que norteasse o pensamento geral e outros educadores parceiros e firmes na idéia de ampliação de repertório de meninada. Maaaaas isso não foi fácil!!!!! Uma ponte gigantesca separava de um lado educadores com medo de perder os empregos e do outro lado o coordenador geral, o pedagogo junto com uma carcomida e empoeirada assistente social criavam um time (jogando contra a vontade de reconhecimento identitário afro-brasileiro das crianças e adolescente da região do entorno da Instituição Maluco Beleza). Ninguem se pronunciava. 

Essa coisa toda de identidade afro-brasileira na Instituição Maluco Beleza parecia coisa do capeta. A Instituição tinha a fineze de mostrar que em sua pratica era laica, sem proselitismos... mas por entre as paredes da sala rolavam soltas as palavras da Bíblia de forma a catequizar as crianças. Jivago pensava que era importante a ampliação religiosa também, mas que se pudesse então falar do Corão, do Baghavaguita, da Torat, dos Vedas... isso ampliaria concomitantemente o repertorio cultura e artístico da galerinha. Mas tudo isso para a Instituição parecia palavras de satanás em outras línguas. Para Jivago isso parecia bullying e muito provavelmente, feria e silenciava também alguma criança que tinha a sua família devotos da MESA BRANCA, KARDECISMO, DO CANDOMBLÉ, UMBANDA... Nem pensar em falar em Ser Negro filho de Reis Africanos. NÃO PODE!!!!

Orixá Oxossi, desenhado por Jivago e
pintado pelas crianças da Inst. Maluco Beleza.
Orixá Xangô, desenhado por Jivago e
pintado pelas crianças da Inst. Maluco Beleza.


Orixá Obá, desenhado por Jivago e
pintado pelas crianças da Inst. Maluco Beleza.


NÃO PODE!!!! esse era o texto. "Não pode" fixar quadros dos jovens nas paredes, "não pode" pintar em cima das mesas, "não pode" jogar futebol, "não pode" correr, nem gritar, não pode subir pra beber água pois a chão ja foi limpo... NÃO PODE!!!! Sabotagem com toque refinado de perfume francês hipnotizavam os educandos (crianças e adolescentes) e calando o infinito universo criativo dos educadores e colocando-os para realizar atividades de entretenimento (construindo assim, casinhas feitas de palitinhos de picolé, miniaturas de arvores de natal, pintar o homem aranha, brincar com bonecar Barbie, assistindo filmes ou coreografias com fundo musicais americanizados). Arnold Schwarznegger, Rambo, Bob Esponja e Tartarugas Ninja fazem parte do repertorio de filmes na Instituição Maluco Beleza e a equipe de educadores estava totalmente vendida, apavorada e com muito medo das ações silenciosamente ardilosas da coordenação. Assim foi feito o Halloween, pintaram desenhos de aboboras com caras de mau, desenharam bruxas voando em vassouras e jogos de entretenimento. O nosso personagem Jivago não sabia o que dizer, era uma luta solitária...sem equipe. Sobre os filmes Jivago pensou no premiado filme Kiriku, também no filme O Pequeno Principe e no filme Os Sem Floresta. Mas até ele, Jivago, era cego. Porque nada disso era genuinamente brasileiro. Eram todos cegos em tiroteio!!!! 



Tiroteio? Nessa mesma época, na "comunidade" ao redor da Instituição Maluco Beleza, policiais entraram atirando a procurar de criminosos e acertaram, matando uma senhora de idade. (Era avó de uma das crianças da Instituição). Nessa mesma noite a população se revolta incendeia micro-ônibus, queima madeiras, tabuas e pneus velhos interditando o transito de avenidas principais... no dia seguinte, tudo esta super tenso no bairro Beleza Beleza. Dois adolescentes trazem para a Instituição projeteis de bala de borracha e marcas pelo corpo desses tiros como troféus. Isso tudo acontecia muito perto das salas de atividades, sem contar com o cheiro de maconha matinal que não parou no dia seguinte. Mas esse roteiro de teatro, essa cena de novela, podia muito bem ter acontecido no seu bairro caro leitor.



O nosso personagem Jivago pensou que podia (na sala de atividades) colocar a temática da violência em pauta e discutir juntos aos adolescentes o que se relatava nos jornais, o que a policia falava e as famílias sentiam... era um prato cheio para o desenvolvimento do jovem cidadão... direitos, deveres, pertencimentos...perdas...dores, nas construções e resignificados... o que podía produzir Jivago artística e educativamente juntos com os meninos? Que olhar seria esse!? Mas a Instituição Maluco Beleza não se pronunciou e nem apoio a idéia do debate. A coordenação assustada, apenas solicitou que toda a equipe fosse embora mais cedo da Instituição Maluco Beleza para não criar outros problemas e vítimas. Mas Jivago ficava pensando sobre a criança que, no final da tarde, no termino das atividades da sala, pegava seu caderninho e ia embora por entre as veias e vielas da comunidade (favela) sozinho. Qual era mesmo a preocupação da coordenação???? Hummmm... ir embora, se mandar...


Em meio a mortos e feridos Jivago propunha aos adolescente a criação de texturas de motivos africanos, uma técnica abstrata e lúdica para acordar do subconsciente questões adormecidas. Essas ilustrações e pinturas Jivago fixou na parede do fundo da Instituição (na qual a rapaziada "puxava um fumo"). Os adolescentes e crianças de 5 a 14 anos, exalavam o odor, mas começaram a pensar o Brasil que se quer, a cidade e comunidade que se têm... e assim Jivago foi traçando um espaço lúdico e reflexivo (no muro) junto aos jovens até chegar naturalmente na negritude e africanidades deles próprios. A conversa se estendeu tanto que Jivago junto as crianças chegaram nos diversos parentes dos meninos presos: Seu "João" por trafico, dona "Maria" roubo, "José" por assalto a mão armada seguido de morte... Quase todos negros encarcerados. Daí iniciou-se os motivos de cada uma de seus parentes estarem detidos... crianças e pré-adolescentes começamos a pensar seus parentes e a família que se têm e a que se deseja. Jivago começou a pensar com aqueles meninos o futuro e essas questões sobre higienização étnico-social... Muitos depoimentos emocionantes que deveriam ser trazidos pela assistente social em reuniões de discussão de caso. Mas Jivago e seus amigos educadores não tinham reuniões. Nem de caso, nem quinzenais e nem tão pouco os educadores participavam de reuniões pedagógicas ou junto aos pais para estreitar os vínculos junto as famílias, compreender as singularidades de cada lar... O que Jivago e os educadores pareciam ser era Cuidadores e não Educadores. Definitivamente a Instituição Maluco Beleza não tinha reuniões e por esse motivo uma ponte longa distanciava e calava os educadores de uma lado e as coordenações geral e pedagógica do outro sussurravam de portas fechadas. De portas fechadas. Adivinha quem sempre esteve no meio da ponte? A criança e o adolescente... sempre de portas abertas, ávidos de saber e saborear cada atividade...mas eles eram números. Estatísticas. Nesse contexto separados com equipe fragmentada, Jivago dava inicio (em segredo junto com as crianças e adolescentes) a busca e pesquisa de seus heróis individuais. Seus heróis Nacionais. Viva Zumbi!!!!










(Veja a continuidade dessa historia aqui: www.andremustafa.blogspot.com)